setembro 29, 2012

Oh, Lua!


Uma noite fria - sentado sozinho em minha cabana vazia
Cheia apenas com a fumaça do incenso.
Lá fora, um bambuzal de centenas de árvores;
Na cama, livros e mais livros de poesia.
A Lua brilha por cima da janela,
E toda a vizinhança está em silêncio, exceto pelo lamentar dos insetos
Ao olhar essa cena, emoção sem limites,
Mas nenhuma palavra. (Ryokan (7))

--



Os dias de Lua cheia - como hoje - são dias especiais no calendário budista. Os principais eventos da vida do Buda Shakyamuni, por exemplo, são relatados como ocorrendo durante noites de Lua cheia: seu nascimento, sua saída do palácio para o caminho espiritual, sua iluminação e sua morte. Outra ocorrência notável da Lua no imaginário budista é como símbolo da percepção das coisas como elas são (Nirvana), como ilustra a figura do bhavachakra em um post anterior (1).

Enquanto o Sol nos oferece uma perspectiva de passagem de tempo mais curta e imediata, a observação do ciclo lunar nos serve de marcador de um período mais extenso de tempo. Refletindo as tradições da Índia védica pré-budista, Buda manteve a observação das Luas cheia e nova como períodos de prática intensificada, conhecido na tradição Theravada  (2) como Uposatha.

O Uposatha foi transmitido também através do Mahayana (2) e, ao passar pela China e chegar ao Japão, sofreu algumas mudanças substanciais. Segundo a lenda, os seguidores do buda Shakyamuni se ajuntariam durante os dias do Uposatha para meditarem juntos. Durante esses eventos, os discípulos leigos recebiam ensinamentos dos monges - que então recitavam as 227 regras de disciplina que eles receberam do Buda. Esse hábito evoluiu para uma cerimônia de confissão e arrependimento, durante a qual os monges e monjas confessavam suas violações e faziam votos de praticarem melhor no futuro. No Mahayana, a cerimônia mantém o espírito de confissão e arrependimento, porém a prática de fazê-lo para outros monges foi abolida.

Nas tradições do Zen Japonês (na escola Soto), a cerimônia é conhecida como 略布薩 (ryaku fusatsu). Ryaku significa abreviada, e fusatsu (uposatha) significa (3), mais ou menos, "continuar a boa prática" e "parar as más práticas" (4). As cerimônias variam em certa extensão entre os diferentes templos da escola, mas de forma geral seguem a seguinte estrutura (5):

1. Reconhecimento das más ações e confissão de arrependimento

 (懺悔文, Sange-ge, Gatha de Arrependimento)

我昔所造諸悪業(Ga-Shaku-Sho-Zou-Sho-Aku-Gou)
皆由無始貪瞋癡(Kai-Yuu-Mu-Shi-Ton-Jin-Chi)
従身語意之所生(Jyuu-Shin-Go-I-Shi-Sho-Shou)
一切我今皆懺悔(Issai-Ga-Kon-Kai-San-Ge) 

Ou, na versão Japonesa (6):

我れ昔より造る所のもろもろの悪業は
Ware mukashi yori tsukuru tokoro no moromoro no akugou wa
皆無始の貪瞋癡に由る、
Minna mushi no tonjinchi ni yoru
身語意より生ずる所なり、
Shingoi yori shouzuru tokoro nari
一切我今、みな懺悔したてまつる
Issai ware ima, mina sanke shitate matsuru.


Todas as minhas ações não-saudáveis cometidas
Por avareza, ódio e ilusão desde o começo sem começo
Oriundas do corpo, fala e mente
Eu agora reconheço



2. Reconhecimento e homenagem aos antepassados

Reverência aos sete budas antes de Buda
Reverência ao Buda Shakyamuni
Reverência ao Buda Maitreya
Reverência ao Bodhisattva Manjusri
Reverência ao Bodhisattva Samantabhadra
Reverência ao Bodhisattva Avalokitesvara
Reverência à sucessão de ancestres


3. Recitação dos votos do Bodhisattva

(四弘誓願, Shi-gu-sei-gan, Os quatro grandes votos do Bodhisattva)

衆生無辺誓願度(Shu-Jyou-Mu-Hen-Sei-Gan-Do)
煩悩無尽誓願断(Bon-Nou-Mu-Jin-Sei-Gan-Dan)
法門無量誓願学(Hou-Mon-Mu-Ryou-Sei-Gan-Gaku)
仏道無上誓願成(Butsu-Dou-Mu-Jou-Sei-Gan-Jyou)


Os seres são inumeráveis, faço voto de salvá-los
Os desejos são insaciáveis, faço voto de extinguí-los
Os portais do Dharma são ilimitados, faço voto de aprendê-los
O caminho de Buda é insuperável, faço voto de realizá-lo


4. Recitação do Refúgio na Jóia Tríplice

(三帰礼文, San-Ki-Rai-Mon, Versos do Tríplice Refúgio)

自帰依仏(Jii-Ki-E-Butsu)
当願衆生(Tou-Gan-Shu-Jyou)
体解大道(Tai-Ke-Dai-Dou)
発無上意(Hotsu-Mu-Jyou-I)

自帰依法(Jii-Ki-E-Hou)
当願衆生(Tou-Gan-Shu-Jyou)
深入経蔵(Jin-Nyuu-Kyou-Zou)
智慧如海(Chi-E-Nyou-Kai)

自帰依僧(Jii-Ki-E-Sou)
当願衆生(Tou-Gan-Shu-Jyou)
統理大衆(Tou-Ri-Dai-Shu)
一切無礙(Issai-Mu-Ge)


Eu tomo refúgio em Buda.
(Que todos os seres
Compreendam o grande caminho
E despertem)

Eu tomo refúgio no Dharma.
(Que todos os seres
Penetrem profundamente no oceano
Da sabedoria da Iluminação)

Eu tomo refúgio na Sangha.
(Que todos os seres
Carreguem harmonia ao mundo
E vivam sem obstáculos na mente)


5. Reafirmação dos 3 Preceitos Puros

(三聚浄戒, San-Jyu-Jyou-kai)

摂律儀戒 (Shou-Ri-Tsugi-Kai)
摂善法戒 (Shou-Zen-Bou-Kai)
摂衆生戒 (Shou-Shuu-Jyou-Kai)


Faço voto de evitar todo mal
(É a morada da lei de todos os Budas;
É a fonte da lei de todos os Budas)

Faço voto de esforçar-me para viver na Iluminação
(É o ensinamento do anuttara samyaksambodhi
e o caminho daquele que pratica e é praticado)

Faço voto de viver para o benefício de todos os seres
(É transcender profano e sagrado
e cruzar a si mesmo e aos próximos)



6. Reafirmação dos 10 Preceitos Graves

(十重禁戒, Jyuu-Jyuu-Kin-Kai)

不殺生戒 (Fu-Sesshou-Kai)
不偸盗戒 (Fu-Chuu-Tou-Kai)
不邪淫戒 (Fu-Jya-In-Kai)
不妄語戒 (Fu-Mou-Go-Kai)
不飲酒戒 (Fu-In-Shu-Kai)
不説過戒 (Fu-Sekka-Kai)
不自讚毀他戒 (Fu-Ji-San-Ki-Ta-Kai)
不慳法財戒 (Fu-Ken-Bou-Zai-Kai)
不瞋恚戒 (Fu-Shin-I-Kai)
不謗三宝戒 (Fu-Bou-San-Bou-Kai)


Faço votos de não matar.
(Por não tirar vida, a semente da árvore de Buda cresce.
Transmita a vida de Buda, e não mate.)

Faço votos de não tomar o que não me é dado.
(O sujeito e os objetos são como são, dois porém um.
O portal da liberação permanece aberto.)

Faço votos de não fazer mau-uso da sexualidade.
(Deixe as três rodas do sujeito, objeto e ação serem puros.
Com nada a desejar, segue-se lado a lado com os Budas.)

Faço votos de não incorrer em discurso falso.
(A Roda do Dharma gira desde o princípio.
Não há nem excesso e nem falta.
O doce orvalho permeia a tudo e colhe a verdade.)

Faço votos de não ingerir intoxicantes.
(Originalmente puro, não macule. Isso é atenção plena.)

Faço votos de não caluniar.
(No Budhadharma, caminhe junto, aprecie junto, realize e perceba junto.
Não incorra em censura. Não incorra em conversa banal.
Não corrompa o caminho.)

Faço votos de não orgulhar-me às custas de outros.
(Budas e ancestres realizam o vasto céu e a grande Terra.
Quando eles manifestam o nobre corpo, não há dentro ou fora na vacuidade.
Quando eles manifestam o corpo do Dharma,
não há sequer um grão de terra no chão.)

Faço votos de não ser avarento.
(Uma frase, um verso - isso são dez mil coisas e centena de folhas;
Um Dharma, uma realização - isso são Budas e ancestres.
Poranto, desde o princípio, não há necessidade de mesquinhez.)

Faço votos de não cultivar maldade.
(Nem negativo, nem positivo, nem real ou irreal.
Há um oceano de nuvens iluminadas e um oceano de nuvens brilhantes.)

Faço votos de não denegrir os Três Tesouros.
(Expressar o Dharma com esse corpo é o principal.
A virtude retorna ao oceano da realidade.
É incomensurável; nós aceitamos com respeito e gratidão.)



7. Extensão de méritos

十方三世一切仏(Ji-Ho-San-Shi-I-Shi-Fu)
諸尊菩薩摩訶薩(Shi-Son-Bu-Sa-Mo-Ko-Sa)
摩訶般若波羅蜜(Mo-Ko-Ho-Jya-Ho-Ro-Mi)


(Portanto, nessa noite de Lua cheia,
Oferecemos o mérito do Caminho do Bodhisattva
Através de todos os mundos, à natureza não-nascida de todos os seres.)

Todos os Budas, em todo o espaço e tempo;
Todos os seres, Bodhisattvas e Mahasattvas;
Sabedoria além da Sabedoria
Mahaprajna Paramita.



A Lua cheia nos oferece um momento não apenas da beleza das coisas simples da vida, como também de reflexão de nosso comportamento. Quantas luas cheias você ainda terá chance de ver? O tempo passa - e às vezes passa mais depressa do que gostaríamos. O que você está deixando para o mundo? 

Encerro com mais um poema do grande monge poeta Ryōkan (7):

À noite, montanhas adentro, sento-me em zazen.
Os assuntos dos homens nunca chegam até aqui.
Na quietude, sento-me em uma almofada de frente à janela vazia.
O incenso já foi engolido pela noite sem fim;
E meu manto tornou-se um vestido de orvalho branco.
Sem conseguir dormir, caminho pelo jardim;
De repente, sobre o mais alto pico, desponta a Lua cheia. 




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(1) Embora, note, isso não significa que a Lua em particular seja O símbolo da iluminação. Ao invés da Lua, poderia ser o Sol, uma árvore, ou qualquer outra coisa (ou nada).

(2) Theravada é uma das duas tradições budistas existentes. É particularmente presente no sudoeste asiático, e é tida como sendo a mais próxima das práticas observadas durante o tempo de Buda (ca. 500 a.C.). O Mahayana, outra corrente das principais tradições budistas, tem sua origem por volta do começo da era cristã. Dentro do Mahayana, encontram-se as escolas Chinesas, Japonesas e Tibetanas.

(3) Os ideogramas 布薩 são apenas usados para fins de transliteração; e não têm significado. 布薩 é uma transliteração do sânscrito poṣadha que, por sua vez, é corruptela do Páli uposatha.

(5) Tomado como exemplo a ordem feita pelo San Francisco Zen Center. Os textos em parênteses, pequenos, correspondem às recitações feitas pelo oficiante da cerimônia.

(6) Os textos do Zen - em particular as gathas - têm normalmente duas versões de recitação: as que mantêm  a estrutura original Chinesa e o recitam com leitura Japonesa dos ideogramas; e a re-interpretação em gramática Japonesa. Ambos são oficialmente utilizados, e a escolha dentre eles depende de cada templo/oficiante. 

(7) Ryōkan Taigu (良寛大愚?) (1758–1831) foi um monge Zen budista da escola Soto. Ficou conhecido pelo seu comportamento excêntrico e pelo seu talento com poesia e caligrafia. Em: Stevens, John (Trad.). One Robe, One Bowl: The Zen Poetry of Ryōkan. Weatherhill, 2006.


julho 29, 2012

Os papéis das comunidades religiosas na sociedade: uma breve reflexão

Li recentemente uma postagem em um blog cristão intitulada: "Para o quê Deus nos chamou afinal?" A matéria chamava para uma releitura dos propósitos da comunidade cristã, em resposta ao ativismo social que tem sido extensivamente praticado por membros da Igreja. O autor defende a ideia de que a Igreja tem uma missão unicamente espiritual; e que não é recomendável aos praticantes engajarem-se em protestos e ativismos sociais. É claro que o principal papel das igrejas é oferecer suporte espiritual para os fiéis; porém isso não é tudo.  A própria ideia de querer separar o "eu-cristão" do "eu-cidadão" é não só impossível, como também anti-cristã.

Ler esse blog trouxe-me à mente uma pregação que assisti uma vez, em que o líder evangélico R. R. Soares argumentava que a igreja não tem que dar cestas básicas: "isso é trabalho do governo!", dizia; o trabalho da igreja é orar e oferecer o "pão espiritual." Pergunto-me: quão raso e quão deturpado é o entendimento de quem separa tão veementemente as coisas espirituais do mundo material? O próprio Jesus exorta seus seguidores (Lc 6:30; Mt 5:32) a doarem a quem necessita; e vai até ao extremo do desapego: "Disse-lhe Jesus: Se queres ser perfeito, vai, vende tudo o que tens e dá-o aos pobres, e terás um tesouro no céu; e vem, e segue-me." (Mt 19:21). Paulo, depois de Jesus, também coloca a caridade em evidência, retratando-a como o maior de todos os dons espirituais (1Cor 13:13).

Num contexto bíblico, afirmar que cristãos não devem envolver sua fé nos assuntos da sociedade é tanto absurdo quanto blasfêmia. No sermão da montanha, Jesus encoraja seus discípulos a espalharem-se na multidão, levando sua sabedoria (Mt 5:13-17) como luz. Jesus era revolucionário, e incitava assim seus discípulos a mudar o mundo. E, por séculos, eles ouviram esse chamado. A Igreja contribuiu muito (e ainda contribui) para promover educação e saúde em diversas comunidades carentes espalhadas mundo afora. Padres missionários foram os primeiros a decifrarem as línguas de países longínquos: graças a eles tivemos os primeiros dicionários e pudemos estabelecer contatos e entender suas culturas (ou o que restou delas após a catequese, em alguns casos). Também graças à Igreja, muito se avançou na ciência - ainda que dentro dos limites de interesse do Vaticano. E ainda que neguemos a importância disso tudo, não podemos esquecer do papel de agregador social que as igrejas vêm desempenhando ao longo dos séculos. Quantas revoluções e quantas revoltas civis não devem ter nascido às surdinas em meio a uma tranquila missa de domingo? 

Infelizmente, a mentalidade medieval que impunha as vontades e teologias controladoras do clero sobre a massa de discípulos leigos ainda persiste até hoje. Enquanto os cristãos criarem essa (inexistente) separação entre o Reino de Deus e a vida aqui e agora, não haverá volta de Jesus, nem paraíso. Enquanto eles não entenderem e seguirem a mensagem verdadeira de Jesus - que é mais clara que um céu aberto de Verão - ficarão proclamando angustiados por sua volta e desperdiçando a vida única e maravilhosa que lhes foi dada, in lieu da vazia esperança de uma eternidade de bençãos e alegrias no pós-morte. Era exatamente essa mesma visão determinista que o clero medieval - em associação com reis, imperadores e aristocratas - pregava dentre seus fiéis como mecanismo dominador para que eles aceitassem submeter-se, sem reclamação e sem revoltas, a uma vida medíocre. Jesus, o profeta revolucionário que tentava trazer o homem mais perto de Deus, transformado em um personagem passivo; um observador de braços cruzados. Um conformista. Tem algo muito errado nisso. 

Se realmente os cristãos amam seu deus e Jesus, não podem jamais deixar de lado o aspecto social. Jamais. Só assim serão verdadeiramente a luz que iluminará o mundo.


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No contexto budista, a situação é um pouco mais simples. Aqui no ocidente, o budismo floresceu já com uma postura meio revolucionária. Ser budista era uma resposta à mentalidade "quadrada" do ocidente cristão; meio que como uma parte da rebeldia da juventude dos anos 60. Engana-se quem pensa que a filosofia budista de compaixão e equanimidade (e, em especial no Zen, a ideia de "não-ação") tem alguma coisa a ver com conformismo. O ativismo budista, particularmente no Vietnã, Myanmar, Índia e Tibete é forte; e é marcado pelo ideal da "resistência passiva", bastante difundidos por mestres budistas como Thich Nhat Hahn e Dalai Lama, e por não-religiosos como Gandhi. Não é raro vermos protestos de monges budistas contra a ocupação e aculturação promovida por regimes comunistas como no Vietnã e no Tibete. (Com mais frequência do que o desejado, vemos também atos desesperados, como os casos de autoimolação. Apesar de não ferir terceiros, é um ato triste de extrema violência, e reprovado por vários mestres budistas.) 

A filosofia budista tem a interdependência dos fenômenos como um de seus pontos centrais. A interdependência inspira responsabilidade e consciência social, e daí o envolvimento em causas sócio-politicas advém naturalmente. Assim como as igrejas, os templos exercem um trabalho de assistência social importante. No trágico episódio do tsunami que assolou a costa nordeste do Japão, por exemplo, vários templos serviram como abrigos aos desalojados, que ficaram sob cuidado dos monges. 

Nas sociedades ocidentais, o papel dos templos budistas é fortemente associado à propagação das diversas manifestações culturais orientais; das artes marciais como o Tai Chi ao ensino de idiomas. E cada uma dessas manifestações é também um veículo de transmissão budista. O suporte espiritual à comunidade vem através das diversas práticas, e dependem da denominação do templo. No Zen, o principal elemento espiritual é o aperfeiçoamento individual (também, por definição, coletivo) sob assistência de um monge mais experiente que busca desenvolver no praticante as características essenciais para a manifestação da compaixão ilimitada. Na escola Zen, o principal foco é a meditação (que, aliás, é o que significa a palavra "zen"), reconhecida como sendo o elemento central para o desenvolvimento das seis perfeições aspiradas por um budista (i.e. generosidade, disciplina ética, paciência, esforço entusiástico, concentração e sabedoria). Há também o elemento da fé, trabalhado através de arquétipos (diferentemente da visão teísta), em cerimônias e elementos religiosos. O Zen reconhece que diferentes pessoas têm diferentes visões de mundo e diferentes modos de trabalhar sua espiritualidade e, por isso, oferece diferentes práticas independentes de dogmas. 

Dessa forma, os principais papéis das comunidades budistas seriam: (i) oferecer uma alternativa àqueles que buscam um caminho de desenvolvimento pessoal (ou espiritual) independente de dogmas e crenças, (ii) servir de agregador social às comunidades (particularmente de imigrantes) locais, (iii) atuar como difusor de elementos da cultura oriental.

Por fim; independentemente da religião, ter uma comunidade de prática é de importância fundamental. O caminho espiritual é estreito e difícil. É uma jornada solitária; mas é possível (e talvez fundamental) percorrê-la ao lado de outras pessoas - e isso faz toda a diferença. Servir de suporte aos amigos, especialmente quando vier aquele escorregão que todos damos; essa é a função primordial de toda comunidade religiosa e a razão de ela vir a existir. Talvez ainda mais fundamental seja perceber que a Igreja - ou a Sangha - é muito maior do que as paredes do seu templo. É muito maior que as barreiras de sua religião. É do tamanho exato do universo inteiro.

Esforcemo-nos juntos!

maio 02, 2012

गते गते पारगते पारसंगते (gate gate pāragate pārasaṃgate)




[1]

Quando eu decidi começar a estudar Zen a sério no Busshinji  (仏心寺, templo Sōtō Zen onde eu praticava no Brasil), perguntei ao  jikidō (直堂) daquele dia: "Então, estive pensando e gostaria de estudar aqui com vocês. O que eu preciso fazer pra isso?" E ele me respondeu: "Ah, venha no sábado que vem e sente com a gente de novo!" Eu, insatisfeito, perguntei de novo: "Mas, e as palestras? Quando costumam acontecer?" Ele olhou para mim e riu, dizendo: "Ah, aqui não tem isso! É só vir e sentar!" Bom, eu já havia praticado num monastério Zen (Rinzai) chinês anteriormente (Templo Zulai), e sempre tínhamos palestras depois das meditações e aos domingos! Como era possível que não tivesse algo do gênero ali no Busshinji? Fiquei desapontado.

O mestre Saikawa (abade do Busshinji) não costuma dar palestras, exceto durante os períodos de prática intensa (sesshin, 攝心). Lembro-me uma vez em que ele começou a ensinar e - num certo ponto - parou o que estava falando e disse: "Oh, eu falo demais! Por favor, perdoem-me. Não estou os treinando direito!" Isso me fez lembrar aquele momento que mencionei anteriormente e me fez rir sozinho. Naquele instante, eu entendi tudo. 

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Nós somos acostumados a receber conhecimento de outras pessoas através de aulas ou palestras. Tem sido assim por toda nossa vida, desde a pré-escola até os pós-doutoramentos; em particular no que diz respeito à Filosofia e à Religião. E, claro, o Budismo não é exceção. Contudo, o foco é um pouco diferente no Zen. O Budismo tem vários conceitos, terminologias, teorias, cosmologias, e jeitos peculiares de expressá-los. Um dos meus favoritos é a imagem abaixo:


bhavacakra: "roda do samsara".

Essa é uma imagem comumente encontrada nas tradições tibetanas do Budismo, e também em alguns templos na Índia. É um modo bastante conciso de explicar os ensinamentos de Buda de modo abrangente e direto. Contudo, enquanto muita gente se foca no centro da imagem, o Zen aponta para o pequeno detalhe no canto superior esquerdo: a Lua. Essa Lua desenhada ali não significa nada além do que a Lua em si: é a realidade - como ela é - aqui e agora. Pode chamar isso de nirvana, iluminação, satori, Deus, etc. se quiser usar alguma terminologia específica. Todas as representações dentro da roda, no meio do desenho, representam conceitos e fenômenos que ocorrem dentro de nossa mente obscurecida e confusa, que nos impede de experimentar as coisas tal como elas são (ver a Lua); e, então, há Buda (no canto superior direito) tentando, de alguma forma, nos ajudar a fazê-lo. Todos seus ensinamentos práticos destacam a importância do momento presente, e isso é algo que temos que experimentar por nós mesmos. Da mesma forma, eu poderia gastar horas tentando explicar o quanto o bolo de laranja da minha avó é delicioso: como ele é crocante por fora, mas leve e molhadinho por dentro; doce, mas com uns toques de azedo aqui e ali (se você tiver sorte de pegar um dos pedacinhos de casca caramelizados que ela coloca na massa). Contudo, não importa o quanto eu escreva a respeito, você jamais conhecerá de fato o bolo enquanto não comê-lo. O Buda aponta para o bolo sobre a mesa. Só temos que ir até lá e comê-lo. 


No Zendô[2], cada passo é um ensinamento. Por que caminhamos com as mãos naquela postura esquisita? Por que nos sentamos com as pernas cruzadas? Por que fazemos reverência à almofada zilhões de vezes? Por que nos viramos em sentido horário? Para que existe aquela linha branca no zafu? E todas as roupas excêntricas? E os cânticos?! Cada passo, cada movimento e cada não-movimento são o ensino fundamental. Cada pequena coisa. Só conseguimos perceber isso quando abandonamos todas as nossas expectativas do que o ensinar deveria ser e o recebemos como é.

Ir além de nossas ideias, além de nossos conceitos e além de nossas mentes. Esse é o ponto fundamental: ir além, e além. E, então, mais além. Isso é sabedoria em sua forma mais pura. Isso é "iluminação". Um velho texto budista tradicional, o "ensinamento sobre a essência da grande perfeição da Sabedoria" - mais comumente conhecido como Sutra do Coração (Prajñāpāramitā Hṛdaya sūtra em Sânscrito, ou Hannya Shingyo [般若心経] em Japonês) - finaliza com a seguinte expressão:


 गते गते पारगते पारसंगते बोधि स्वाहा 
(gate gate pāragate pārasaṃgate bodhi svāhā)

significando: "vá, vá, vá além; vá mais além. Realização perfeita!" E é isso, simples assim. Não é necessário estudar e recitar páginas e páginas de velhos textos mortos para perceber isso. Sobre esse sutra, o velho mestre Rujing[3] diz:

Todo o corpo é uma boca [sino] pendurado no espaço vazio, 
independentemente do vento do leste, oeste, sul ou norte,
juntando-se ao universo ao ecoar nossa sabedoria.
Ting-ting, ting-ting, ting-ting."[4]

ao qual, mestre Dogen comenta: "todo o corpo é sabedoria. Todo o outro é sabedoria. Todo o eu é sabedoria. Todo o leste, oeste, sul e norte é sabedoria."[4]

É isso. Ecoe.




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Notas e referências:
[1] Vide postagem anterior.



[2] Um típico zendô no ocidente. Posturas, roupas, layout. Para quê?


[3] Mestre Rujing (Jp. Nyōjo, 1162-1228) foi um monge Chinês da escola Caodong do Zen. Mestre Dogen estudou com ele na China, e trouxe seus ensinamentos para o Japão, dando origem à escola Sōtō.


[4] In: Eihei Dogen, "Treasury of the True Dharma Eye" (Shoubougenzou, 正法眼蔵). Capítulo 2: "Manifestation of Great Prajna" (摩訶般若波羅蜜). K. Tanahashi (Ed.) Shambhala: Los Angeles, 2010.

março 06, 2012

O Grande Kassapa


"Enquanto alguns se cansam ao escalar rochas,
Um herdeiro de Buda, contemplativo, senhor de si,
Fortificado por seus poderes sobrenaturais,
Kassapa sobe o arco da montanha.

Ao retornar da jornada diária por esmolas,
Ele monta novamente na pedra e se senta
No êxtase da meditação, sem a nada se ater,
Pois para longe de si mandou medos e pavores.

Ao retornar da jornada diária por esmolas,
Ele monta novamente na pedra e se senta
No êxtase da meditação, sem a nada se ater,
Pois ele, em meio ao fogo, é frio e sereno.

Ao retornar da jornada diária por esmolas,
Ele monta novamente na pedra e se senta
No êxtase da meditação, sem a nada se ater.
Sua tarefa está cumprida: de todas preocupações está liberto." [1]


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Maha Kassapa, ou o Grande Kassapa, é o primeiro patriarca reconhecido na tradição Zen após a morte do Buda Shakyamuni. Os cânones o retratam como sendo bastante severo: foi o praticante mais austero de toda a Sangha à época; o mais dedicado ao asceticismo. Diz-se que, mesmo depois de idoso, ele preferia habitar nas montanhas à viver com os demais monges em um monastério. O verso acima foi composto quando foi questionado pelos monges o porquê, mesmo depois de velho, ele ainda subia e descia a montanha todos os dias. A resposta é direta: a prática nunca cessa.

Maha Kassapa, conhecido no Zen como Maha Kashô (摩訶迦葉) ou Daikashô (大迦葉), é reconhecido como o primeiro patriarca do Zen, devido possivelmente à sua grande ênfase na prática meditativa. Em seu primeiro encontro com Buda, ele diz a Kassapa: "Sente-se, e lhe darei a sua herança." Ao que seguem-se as seguintes exortações: [2]

"Você deve treinar-se dessa forma, Kassapa: 'Um senso aguçado de vergonha e medo de cometer o que é ruim deve estar presente em mim ao relacionar-me tanto com os mais antigos, quanto com os noviços e com os membros de status intermediário na Sangha.'

'Quaisquer ensinamentos que eu ouvir e que julgar que conduzem a algo perfeito, devo ouvi-los com o ouvido atencioso, os examinando, refletindo sobre eles, e os absorvendo com todo meu coração.'

'A contemplação do corpo, correlacionada à alegria, não devem ser negligenciadas por mim!' Dessa forma você deve treinar-se."


Buda o reconheceu como um grande discípulo. Sua transmissão é retratada frequentemente no Zen [3], [4]:

"Certa ocasião, o Honrado pelo Mundo ergueu uma flor e piscou. Kassapa sorriu. O Honrado pelo Mundo disse: 'Eu tenho o tesouro do verdadeiro Olho do Dharma; a maravilhosa Mente do Nirvana, e os transmito a Maha Kassapa."

De todos os discípulos que estavam ali presentes, apenas Maha Kassapa compreendeu o gesto de Buda. 



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Notas e referências:
[1] H. Hecker, "Maha Kassapa: Father of the Sangha". 2010. Disponível nesse site. Capítulo 9: "The Verses of Maha Kassapa".
[2] id. ibid. Capítulo 4: "How Kassapa came to the Buddha".
[3] Jokin Keizan, "The Record of Transmitting the Light" (Denkouroku, 伝光録). Capítulo 2: "Mahakasyapa". Tradução: F. D. Cook. Wisdom Publications: Los Angeles, 1996.
[4] Eihei Dogen, "Treasury of the True Dharma Eye" (Shoubougenzou, 正法眼蔵). Capítulo 57: "Face-to-face Transmission" (面授). Edição: K. Tanahashi. Shambhala: Los Angeles, 2010.

dezembro 28, 2011

O sentido do Natal


A cada ano, milhões de pessoas ao redor do mundo se juntam na noite do dia 24 de dezembro para celebrar a ceia de Natal e trocar presentes. Mas qual o verdadeiro significado dessa data?

Tradicionalmente, o Natal é a celebração do nascimento de Jesus - ainda que sua data de nascimento exata seja desconhecida - de forma que, para entender o sentido do Natal, é necessário entender o significado do Cristo. E essa definição por si só já trouxe muitas guerras por séculos e séculos: para os cristãos, Jesus é Deus, o Messias anunciado nas escrituras judaicas; para os Judeus, ele é um inimigo de Deus, que levou as pessoas para longe de Seu propósito; para o Islã, ele é um profeta, mensageiro de Deus, Messias (mas não é Deus feito Homem, como para os cristãos). Essas três ideologias (e suas derivações) têm convivido por séculos, muitas vezes em conflitos, numa perigosa mistura de interesses políticos e ideológicos.

No centro dos ensinamentos de Jesus está a crença de que o reino de Deus pode ser alcançado pelo cultivo de duas práticas principais*: (i) amar a Deus sobre todas as coisas; e (ii) amar ao próximo como a si mesmo. Dentro do contexto budista, essas práticas podem ser interpretadas, respectivamente, como o cultivo da vacuidade do ego (sunyata/anatman) e da compaixão (metta/karuna): 'amar a Deus sobre todas as coisas' é abandonar o próprio ego, não sucumbir aos desejos e não agir egoisticamente, mas pensar primeiro no todo antes de olhar os detalhes; 'amar o próximo como a si mesmo' é entender que somos todos seres humanos, e todos temos nossos medos, sonhos, desejos, defeitos e qualidades. A combinação dessas duas práticas deve levar ao desenvolvimento de uma consciência maior que, em ultima instância, levaria ao reino de Deus** (ou, como dizemos no Budismo, ao estado de Nirvana).

Então, como celebração do nascimento de Jesus, o Natal deveria ser uma época para celebrar a compaixão e a vacuidade. Uma época para deixar o ego para trás e ir atrás daquela pessoa com quem não nos damos bem e dá-lo/a um grande abraço, um sorriso e nos desculparmos por algo de ruim que possamos ter feito. É um tempo para aceitar a ação dos outros, respeitar suas escolhas e seus pensamentos, ainda que sejam diferentes de nosso ponto de vista: deixar para trás o apego a nossas ideias de certo e errado é também parte da vacuidade do ego. O Natal é também um tempo para se passar com amigos e família, mesmo com aqueles parentes de quem não gostamos muito, ou as mesmas comidas e fofocas de fim de ano. Por mais cliché que possa ser, é o momento de se abrir para dar e receber amor, espalhar caridade, ouvir àquelas pessoas que precisam desabafar suas aflições, abraçar os que precisam de um pouco de carinho e alimentar aos que têm fome. Isso é compaixão. É disso que se faz o Espírito Natalino; muito mais do que uma mesa enorme e farta de comidas deliciosas e uma árvore cheia de presentes. Então, aproveitemos essa época para nos aprofundarmos em nossas práticas, tentando arrastar esse espírito de natal pelos outros 364 dias do ano.

Feliz Natal (atrasado)!!

Abaixo, umas fotos do meu Natal aqui em terras longínquas:

Entregamos cerca de 2000 presentes vindos de todo o Japão para crianças e adultos na área afetada pelo tsunami de março de 2011, na província de Iwate.

Servindo Oden (um tipo de sopa tradicional do Japão) para os moradores das casas temporárias que o governo providenciou para os que perderam suas moradias no terremoto e tsunami de março.



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* Claro, existem vários outros ensinamentos, mas os pontos centrais são, no meu ponto de vista, resumidos nessas duas práticas. Por mais simples que possa parecer à primeira vista, essas duas definições têm vários problemas filosóficos profundos, a começar pelas definições de Deus e 'próximo'. Líderes religiosos têm discutido esses significados há milênios...

** Existem várias linhas de pensamento sobre o que significa o Reino de Deus, como acontece com o Nirvana e a Terra Pura do buda Amida. Há aqueles que o vêem como um lugar real, para onde as boas almas vão após a morte; e, no outro extremo, os que o vêem como um estado mental, acontecendo aqui e agora. Meu voto vai para o segundo.

novembro 08, 2011

Nosso pão de cada dia


"Vocês, orem assim:
'Pai nosso, que estás nos céus, 
Santificado seja o teu nome.
Venha o teu Reino;
seja feita a tua vontade, 
Assim na terra como no céu.
Dá-nos hoje o nosso pão de cada dia.
Perdoa as nossas dívidas, 
assim como perdoamos aos nossos devedores.
E não nos deixes cair em tentação,
Mas livra-nos do mal.'" (Jesus)[1]

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Nosso pão de cada dia. Jesus não disse "nosso banquete de cada dia", "nosso Big Mac de cada dia", ou "nosso almoço num restaurante caríssimo de cada dia". Ele disse pão. É claro que o significado é muito mais profundo do que isso [2], mas podemos sentir a humildade requerida das nossas orações, a mesma humildade que deve ser cultivada em nossos corações.

Pão pode ser uma comida simples para muitos de nós hoje em dia. Mas mesmo a mais simples das comidas tem o valor de todo o Universo. Desde as sementinhas do trigo, plantadas por um campo enorme, uma quantidade incontável de pessoas está envolvida no simples ato de fazer a farinha [3]. Normalmente, demora de 3 a 4 meses entre plantar e colher o trigo, e a plantação deve ser supervisionada nesse interim. Então, dá pra imaginar que existe muita gente (até mesmo crianças) envolvidas desde a sementinha até a farinha pronta chegar nas mãos do padeiro da sua padaria preferida e que foi usada pra fazer o seu pão. Dá pra aumentar a lista ainda mais, se incluirmos todas as pessoas envolvidas na fabricação da sacola que você usa para trazer o pão da padaria até sua mesa. E eu só falei de pessoas até agora! Pro trigo crescer, ele se alimentou dos nutrientes do solo, e recebeu energia do Sol e águas das chuvas. E, claro, todo o esforço das minhocas e de todos aqueles pequenos seres vivos que, pouco a pouco, mastigaram e quebraram o solo nos nutrientes necessários para que o trigo crescesse.

Há o esforço de todo o Universo em uma única fatia de pão. O que temos feito para merecê-la?

Nos templos Zen-budistas japoneses, nós normalmente recitamos um verso antes das refeições, chamado "As Cinco Reflexões" (Gokan no ge, 五観の偈) [4].

"Primeiro: Refletimos sobre o esforço que nos trouxe este alimento, e consideramos como ele chegou até nós;
Segundo: Refletimos sobre nossa virtude e nossa prática, e se somos merecedores desta oferta;
Terceiro: Consideramos a gula um obstáculo da liberdade da mente;
Quarto: Consideramos este alimento como o medicamento para sustentar nossa vida;
Quinto: Para realizarmos o caminho, recebemos agora este alimento." 

Em Japonês:

 一には功の多少を計(はか)り彼(か)の来処(らいしょ)を量(はか)る。
 二には己が徳行(とくぎょう)の全欠を忖(はか)つて供(く)に応(おう)ず。
 三には心を防ぎ過(とが)を離るることは貪等(とんとう)を宗(しゅう)とす。
 四には正に良薬を事とすることは形枯(ぎょうこ)を療(りょう)ぜんが為なり。
 五には成道(じょうどう)の為の故に今此(いまこ)の食(じき)を受く。

Todo o universo está contido no seu cookie. E esse mesmo cookie vai ser parte do seu corpo. Cada alimento é precioso: pense nisso. Na época de Buda, os monges viviam de esmolas: eles só podiam comer aquilo que cabia em suas tigelas. Eu tenho certeza que nem todos os alimentos que eles recebiam eram gostosos; talvez alguns fossem até restos. Mas Buda os instruiu a recebê-los todos com igualdade, a comê-los com igualdade, e a serem igualmente gratos por cada migalha oferecida. Sem julgamento ou discriminação, eles todos foram completamente satisfeitos - mesmo com apenas um grão de arroz.



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Notas:
[1] Evangelho de Mateus, capítulo 6. Tradução da Nova Versão Internacional (NIV).
[2] "Pão de cada dia" significa muito amis do que o pão por si só. Significa a provisão de tudo aquilo que a terra pode nos dar e que precisamos para viver: ar, comida, emprego, etc. Algumas linhas teológicas discutem que esse verso também inclui o "pão espiritual" (i.e. bençãos), mas não concordo. Isso já está incluso no verso "Venha Teu Reino".
[3] Essa página tem uma explicação legal (inglês).
[4] Composto pelo monge chinês Dàoxuan [Dousen, in Japanese] (596 - 667 d.C.). Pode encontrar esse texo nessa página, junto com todas as recitações feitas nas cerimônias matinais.

Montanhas ambulantes

"Antes de estudar o Zen por trinta anos, eu via montanhas como montanhas, e águas como águas. Quando cheguei num estágio de conhecimento mais íntimo, cheguei ao ponto em que vi que montanhas não são montanhas, e águas não são águas. Mas agora que toquei na sua substância estou em paz. Porque agora vejo montanhas novamente como montanhas, e águas novamente como águas." (Qingyuan Xingsi)[1]






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Em agosto desse ano, fui ao Monte Fuji. O Mt. Fuji, ou Fuji-san  (富士山) - como é chamado aqui no Japão -, é possivelmente o mais famoso símbolo Japonês. É um vulcão de 3776 metros, situado na borda entre os estados de Shizuoka e Yamanashi. Ao longo do ano inteiro, seus caminhos são abertos para quem quer que queira subí-lo (entretanto, as estações de descanso só ficam ocupadas durante o Verão, devido às condições mais favoráveis de escalada). Um dito popular aqui no Japão sugere que apenas um tolo nunca subiria o Fuji-san uma vez - e apenas um tolo o faria duas.

O Fuji-san tem 10 estações ao longo dos diferentes caminhos. Quando fui, nosso grupo começou a subir a partir da 5a estação. Chegamos às 10 da noite e planejamos atingir o topo às 4h30 - uma estimativa um tanto quanto otimista. Quando chegamos no Fuji-san a noite, não fazemos idéia do que está a nossa espera, e isso é muito bom! (Do contrário, acho que não teríamos motivação suficiente para encará-lo.) É tudo uma grande escuridão, com exceção das lanternas dos viajantes. De fato, só encontramos o caminho  por onde deveríamos ir após seguir a fila de luzinhas, que lembrava mais um "enxame" de vaga-lumes. (Essa situação me lembrou algumas cenas do meu anime Japonês favorito, em que linhas intermináveis de pessoas andam vagarosamente por um vale deserto até um enorme desfiladeiro, onde elas se deixam cair para chegar no Mundo dos Mortos .[2])

Não há barulho lá em cima no Fuji-san. Não há sons de animais, não há rios, não há árvores: não há nada. Apenas as distantes luzes das estações, e o som cansado dos viajantes que se arrastam morro acima nos caminhos das pedras. Mesmo subindo em grupos, o sentimento de solidão é inevitável. Nas montanhas, no silêncio e na escuridão da noite, os ecos da mente ganham um volume incrivelmente alto.

No começo da jornada, o tempo estava bem agradável: fazia um dia típico de verão quando deixamos Tokyo: uns 35 ºC, quente e úmido; e o Fuji-san estava a refrescantes 23 ºC na estação 5 aquela noite. Porém, conforme adentrávamos na noite (e subíamos a montanha), a temperatura caiu bem abaixo de 10 ºC e uma garoazinha persistente nos pegou no meio do caminho. Em algum lugar entre as estações 8 e 9, já a mais de 3100 metros de altitude, me achei sozinho, sentado em uma pedra, todo molhado e tremendo. Olhando para cima, as luzes quentes da estação 9; para baixo, uma grande fila de lanternas de LED. Aparte disso, era tudo uma grande escuridão com um punhado de estrelas brilhando sobre minha cabeça, e algumas luzes da cidade num horizonte distante, espalhadas sob as nuvens.

Não faço idéia de quanto tempo fiquei lá observando as estrelas e olhando na escuridão, mas naquele breve instante compreendi porque os grandes sábios refugiam-se nas montanhas para meditar e orar. Buda foi para as montanhas quando deixou seu palácio à procura da verdade; Jesus se retirava às montanhas para conversar com Deus [3], e Moisés também [4]. Por sinal, diz-se que a primeira subida do Fuji-san que se tem notícia foi feita por um monge, em 663 d.C.

Nas montanhas, você está totalmente sozinho. Se você escorregar, dar um passo sequer mal-calculado, você morre. Se não usar toda sua concentração e não estiver totalmente presente e atento em cada passo, pode ser o fim da linha - especialmente à noite. Em algumas partes da subida, tivemos que literalmente escalar, usando ambos pés e mãos. Um movimento desatento, e toda sua vida - e dos outros que estão próximos - está em risco. Por isso, atenção é super importante.

Não sei explicar bem o porquê, mas existe uma certa sensação de sagrado no Fuji-san: todos falam em voz baixa e têm atitudes presentes enquanto escalam. Eu diria que é quase uma experiência religiosa - você vê a vida e a morte bem na frente do seu nariz, e o único responsável por segurar essa fina linha que as separa é você mesmo.

O mestre Dogen [5] dedicou um texto inteiro às montanhas e às águas, chamado Sutra das Montanhas e Águas (山水経) [6]. Nele, Dogen fala sobre as várias faces distintas das montanhas. Uma de suas principais instruções é: examine em detalhe as características do caminhar das montanhas. Mas, como podemos ver o caminhar das montanhas? Montanhas, mares e rios eram visões comuns dos monges naquela época, então falar sobre montanhas e águas era um método muito eficiente de ensiná-los sobre a realidade do nosso mundo. Por exemplo, nesse texto Dogen aborda o conceito de erosão e do ciclo da água. As montanhas realmente caminham: elas se decompõem lentamente pelo vento e suas partículas atingem o mundo inteiro. Se tornam novas montanhas. É assim que uma rocha pode parir um bebê rocha.

Como o mestre Qingyuan mencionou, quando começamos a estudar o Zen (e não apenas o Zen, mas a Natureza em si: Química, Biologia, Física, etc.), chegamos num ponto em que as coisas não parecem mais o que eram antes. Me lembro claramente quando comecei a estudar Química, eu via um copo de leite com açúcar não como um copo de leite com açúcar, mas sim como uma solução leitosa de glicose. E estou certo de que os botanistas não vêem as flores como nós vemos, nem os físicos têm o mesmo olhar que nós quando observam as estrelas. Mas, no fim das contas, quando você bebe aquele copo de leite com açúcar, é simplesmente um copo de leite com açúcar. Nada mais e nada menos.

Quando estávamos no Fuji-san, tremendo, com sono, e amaldiçoando o momento em que tivemos a estúpida ideia de subir naquele monte de pedras, minha amiga me disse: "Putz, eu achava o Fuji bonito antes quando eu via as fotos dele. Mas agora? Nem por foto vou querer ver ele de novo!"

Quando experimentamos as coisas diretamente, todos nossos conceitos caem por terra. Não há beleza, não há grandiosidade; não há nada de bom do Fuji-san quando estamos lá. Só há o frio, a dor nas costas e nas plantas dos pés, e arrependimento. Hoje em dia, quando falo do Fuji-san, eu o vejo como o via antes: uma grande, bela e imponente montanha - mas agora eu o conheço de verdade. E é por isso que eu o admiro muito mais.

"Há montanhas ocultas em tesouros. Há montanhas ocultas em pântanos. Há montanhas ocultas no céu. Há montanhas ocultas em montanhas. Há montanhas ocultas na ocultação. É assim que estudamos.
Um antigo Buda disse: "Montanhas são montanhas, águas são águas." Essas palavras não significam que montanhas são montanhas; elas querem dizer que montanhas são montanhas. Dessa forma, investigue as montanhas com afinco.
Quando você investiga as montanhas com afinco, isso se torna o esforço dentro das montanhas. Essas montanhas e águas de si mesmas tornam-se pessoas sábias e mestres."


Nascer do sol no Fuji-san, 御来光 (goraiko): "honrada chegada da luz".
 É tão frio lá, que tudo que você quer é ficar ali, quieto, sob o Sol; sentindo seu abraço quente, antes de começar a jornada de volta.

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Notas and Referências:
[1] Qingyuan [青原, Jp. Seigen] (660-740) foi um monge chinês, um dos sucessores do Dharma de Huineng e, assim, o 7º patriarca na linhagem Zen de Bodhidarma (e 34º a partir do Buda Shakyamuni). De sua linhagem, três das principais escolas Zen surgiram: Caodong (曹洞, jp: Soto), Yunmen (雲門, jp: Unmon) and Fayan (法眼, jp: Hougen). De: Shi Daoyuan, "Transmission of the Lamp", ca. 1004 d.C. Em: Watts, A. The Way of Zen. Vintage: New York, 1989. p.126.

[2] Nos Cavaleiros do Zodíaco, o limbus é descrito como um lugar onde as almas erram até encontrarem esses abismos, onde podem cair para a morte eterna.  Veja esse vídeo como exemplo.


[3] Por exemplo, no evangelho de Lucas, capítulo 22, verso 39, Jesus é retratado no monte das Oliveiras, onde passa uma noite em orações antes de sua captura e crucificação.

[4] De acordo com o livro do Êxodo (capítulo 24), Deus disse a Moisés para que subisse o Mt. Sinai, de modo a dá-lo algumas novas ordens que preparou para Seu povo (os 10 mandamentos). 

[5] Eihei Dogen (永平道元) (1200-1253) foi um monge Japonês. O primeiro monge da escola Zen Caodong (Soto, em Japonês) a trazer os ensinamentos para o Japão. Ele é o 24º patriarca na linhagem de Bodhidarma (e 51º a partir do Buda Shakyamuni). Dogen é considerado um dos mais renomandos filósofos Japoneses, e escreveu um tratado extenso sobre Budismo chamado "O Tesouro do Verdadeiro Olho do Dharma" (正法眼蔵, Shobogenzo), uma enorme compilação de 95 capítulos expressando os fundamentos do Budismo através da interpretação da escola Caodong.

[6] Escrito em 1240 e apresentado a monges de um monastério na cidade de Uji, em Kyoto.